Era um dia cinzento, chuvoso, os carros faziam filas nos faróis, buzinando. Um dia horrível. Ele escutava a chuva pingar em minha janela. Dentro do quarto, ao contraria da movimentação da rua, o silêncio era infinito. Os olhos ardiam, o corpo doía, e a mão escrevia sem intervalo, estava até dura.

Na estante uma fotografia amassada, livros e decorações que trazia de suas viagens. A máquina de escrever estava num canto, com uma folha inacabada e letras desordenadas. Não fazia idéia de quanto tempo já estava ali escrevendo. O cigarro no cinzeiro ainda soltava fumaça, o copo de uísque apenas com pedras de gelo derretendo. Levantou-se de sopetão e revirou o quarto procurando por algo e logo reverberou pela casa um barulho e quando ela entrou, viu o corpo dele embaixo de muitas roupas, o soluço baixinho e ele dizia repetidamente: “eu não consigo, eu não consigo, eu não consigo”.

Tirou a arma de sua mão e viu que estava sem balas, ela havia retirado as balas há muito tempo atrás, quando ele começou com a paranóia. Deitou-se ao lado dele, chorando e repetindo: “eu não agüento mais, eu não agüento mais, eu não agüento mais”.

Sorriso que fez eu sentir borboletas na barriga novamente.

As palavras que vem e vão
tem sabor de morango mordido ou de amora fresca, roubada da árvore, e o sorriso da menina que passa do seu lado e chama sua atenção, te faz lembrar dos versos descobertos na cama, quando você apalpa o caminho do pecado e aquele sorriso chega para te presentear mais uma vez.
“Estou pronta!” – penso. Mas pronta para o quê, exatamente? E a vontade de sair pelas ruas a sua procura é tão intensa que esquece o caminho percorrido e perde-se mais uma vez nas lembranças.


Sentada no banco da praça,

ela diz, à sua frente:
"Cheguei!"
Mas ao olhar só enxerga o sol te cegando
e o calor que se manifesta ardentemente.
As palavras que vem e vão,
os amores que vem e vão.

E é de se estranhar que o coração

sempre chama pelas mesmas vozes,
e é de estranhar que o rádio
toca as mesmas canções,
e você sempre a mesma a procurar.

Aqui chove dor
doença que maltrata o coração
que maltrata a alma

Aqui pinga solidão
sensação de tristeza
tempestade de paralisia

Aqui evapora sonhos
sorrisos que fogem dos lábios
tentação do caminho sem rota

Aqui mora a infelicidade
protetor das causas perdidas
e dos poetas sem sonhos.

Observando a noite iluminada pelas luzes da cidade
Minha mente foge para onde te perdi
Um caminho sem volta, sem sonhos
Apenas com a solidão como companheira.
O cigarro, o copo de vinho,
Um disco da Joni Mitchell e minhas lembranças.
Como testemunha do silêncio,
o vaso na sala.

“Por que as pessoas têm de ser tão sós? Qual o sentido disso tudo? Milhões de pessoas neste mundo, todas ansiando, esperando que outros as satisfaçam, e, contudo, se isolando. Por quê? A terra foi posta aqui só para alimentar a solidão humana?”

[Haruki Murakami - Minha querida Sputnik]

"Nós recebemos a visita da poesia, nós não podemos achar que construímos a poesia."
[Criolo]

Velha carta

a velha carta encontrada no meio do livro trouxe-lhe sensações outrora esquecidas. vindas sabe-se lá de onde, velhas lágrimas esbarraram em seus cílios e caíram pelo rosto. o perfume ainda estava impregnado na memória e as lembranças corriam para chegar o mais rápido possível. abraçou a carta contra seu peito. sentou-se no sofá e não pensou em mais nada durante o dia.

Ele partiu
e me deixou
com um corpo sem sonho
Ele partiu
e a dor da perda
estancou meu sangue
Lá se vai
meu pobre coração
correndo o mais que pode
Aqui jaz meu corpo
minha alma derradeira
meus olhos marejados.



caí da cama enquanto sonhava
sonhei que fugia do seu olhar
e de sua boca que me buscava
corri para longe de ti
corri para o meu lado sombrio
sonhei pela última vez
e pela última vez te amei
e saí a minha procura

me tirei os pequenos prazeres
e corri até perder o fôlego
mas ainda assim
você não sai do meu pensamento
e hoje à noite
será o último dia
será o último pensamento
será o último grito

eu me perco em quebra-cabeças
enquanto tomo meu último banho
e hoje à noite, mais uma vez
eu choro
eu sofro
eu escorro
e meu coração se quebra
enquanto faço minha última rima.

A noite vem buscar
alento em meu pensar
traz frescor e melodia
sapiência e companhia
A noite segura meu coração
e o choro de criança
de meus olhos cansados
A noite acompanha
minha agonia, minha solidão
A noite, meu secreto desejo,
e minha paixão.

Pensava a morte com um desejo desesperador. Não sabia mais os sentidos, não queria mais as dores, não desejava outra coisa senão a morte. Seus olhos até brilhavam ao ver a faca em cima da pia. Correu para pegar o objeto de desejo, colocou as mãos sobre a pia, um pingo de suor escorreu em sua testa, caindo no olho vidrado. Enxugou a testa com a manga da camiseta. O telefone recomeçou a tocar. Quinta vez que toca. Quem seria? Uma dúvida o dominou. Faca, telefone, faca, telefone. Faca... Se irritou ao escutar mais um toque. "Deixem-me em paz!", gritou.

(Silêncio)