Hey, você!

Hey, você!
Enquanto andamos nas ruas lotadas
chovemos pensamentos desconexos
tentando viver uma vida que nos empurra
mecanicamente e sem proteção.

Hey, você!
Me espere e dê-me sua mão!
Descorra-me em ideias pragmáticas
ou leve-me para longe do barulho
ensurdecedor de sua voz.

Hey, você!
Ao tocar-me, respire fundo...
Feche os olhos e sinta as borboletas
passeando pelo meu corpo,
possuindo aquilo que te deseja.

Hey, você!
Gastei as salivas do meu pensamento
e nem sei mais para onde vou,
mas se você me acompanhar,
estaremos lado a lado nessa guerra.

Hey, você!
Vou espremer essas palavras e voar
tão longe que nem o satélite poderá me encontrar.
Não há ninguém do outro lado e me vejo no espelho
sem o reflexo daquilo que já fui.

Hey, você!
Saiba que eu sou outra pele,
outra loucura a caminhar nessa escuridão.
Eu vôo e vejo o mundo me absorvendo
e me despeço com o olhar.


(inspiração: Hey You, de Pink Floyd)

o estranho me abraça
e eu nem vejo
me perco nas vias do olfato,
fato para se ver e se esclarecer
quero pregos
pregando
as bordas da parede bordô
cega me perco nas linhas
verticais do seu corpo
que me levam para além das flores,
além das dores
e os sonhos me caçam,
me enlaçam, me rimam,
me mimam.
venho aqui e procrastino
o espaço-tempo do meu morro.
sento e me vejo em toques.
ensurdeci no seu grito
morri no seu gemido.

o socorro me aflige. e daí? tudo me aflige. seu asco me aflige. seu preconceito. sua má informação. sua violência. seu estatuto está todo errado. você não sabem quem sou, mas sei bens quem és. faz pouco caso com tuas leis. faz pouco caso com suas vidas. enquanto um corre, o outro persegue e todos saem feridos. ferido de alma. ferido de vergonha. ferido na carne. ferido no sangue que escorre em seus bueiros infectados de ódio. sou pleno dos meus direitos. tu corres para me tirá-los.
o medo me corrói. o medo da falta. o medo do excesso. o medo de imagens que invadem meus olhos sem pedir licença. o medo me abraça ao ver balas atingindo peles inocentes. paus voando em direção do nada e acertando o alvo. sou violentada de notícias desrespeitosas. de vidas sendo maltratadas. tenho medo daquele riso ridículo. tenho medo da falta d'água. medo de mais quatro anos. medo do ódio. das respostas. do vento.
queria escrever linhas mais alegres. queria sorrir mais. queria ter motivos de orgulho. queria ter menos vergonha de viver num lugar hipócrita. sinto-me enlutada pela educação. enlutada pela regressão que esse país passa a cada dia. enlutada pela saúde. enlutada pelos professores. pela vida.

Quem pensas que és?

Você não sabe quem sou,
para dizer que não mereço amar.
Você sabe o que é amar?
Você sabe o que é respeitar?
Sua religião não me domina
E seu Deus não é melhor que o meu
e ele me respeita
Enquanto você pede a violência
Eu respondo com amor
Enquanto você luta pela ódio
Eu respondo com generosidade
Enquanto você grita impropérios
Eu sussurro gratidão.
Gratidão por ser quem sou,
por ter pessoas que me amam,
por respeitar meu próximo.
E se você me nega respeito,
quem pensas que és?

Não sou menos mulher

Hoje é o dia da mulher, mas vamos parar por um instante e pensar como algumas pessoas são tratadas nesse dia. Um amigo mencionou em seu facebook que as pessoas o estavam parabenizando pelo dia da mulher, afinal ele é gay. Já no meu caso, as pessoas não cumprimentam porque sou lésbica.
O que o faz menos homem por ser gay ou o que me faz menos mulher por ser lésbica? A minha resposta é NADA.
Mas o que faz as pessoas pensarem assim?
Desde que o mundo é mundo, os homossexuais sempre se esconderam por causa do preconceito. Quando passamos a estar mais em evidência porque cansamos de nos esconder, os preconceituosos de plantão começaram a nos estereotipar. Lésbica é mulher-macho, coça o saco e cospe, gays são afeminados e cheios de não-me-toques. Quem criou isso? As mentes pequenas que continuam por aí agredindo, xingando e fazendo comentários ridículos, desrespeitando-nos.
Pessoas muito próximas a mim fizeram esse tipo de “brincadeira” e continuam fazendo, mas ninguém perguntou o que eu sinto com isso. Ninguém se importou em saber o que eu acho sobre isso.
Eu não sou homem, eu não cuspo e nem coço saco. Eu uso saia, sim. Eu passo batom. Eu faço o pé e a unha, além de passar esmalte. Porque o fato de eu gostar de mulher me faz menos mulher e não poder fazer nada disso? O que faz meu amigo menos homem por ele gostar de outro homem?

Quem são essas pessoas que podem julgar dessa maneira? A maioria dessas pessoas não pensam por si só, aliás, muitas delas não pensam nada. Só gostaria que elas vivessem em seu próprio mundo e deixassem que as outras pessoas viverem suas próprias vidas.

Lua bela
despindo sonhos
enraizados
em desejos
tortos
buscando boca
corpo
sexo
buscando ser
ter
prazer
iluminando amores
temores
cores
sombreando peles
e gozando
palavras
sentidos
gemidos

Estou tirando a poeira
dos discos quebrados
do meu coração
Estou apostando nas cartas
que escrevi e nunca li
mas guardei na estante
Escolhi paixões
e me privei de outras
errei e aprendi
Ontem era gatinho
e hoje sou leão
Ganhei a ocasião.

A gente faz merda e depois se arrepende. A gente deixa o medo dominar e acabamos nos arrependendo. Isso já era esperado. E não deixa só o medo dominar, mas o que os outros vão dizer também. Na procura da perfeição, esquecemos que somos imperfeitos.
Eu fui criada para sentir medo. O tempo todo. Depois, somos criados para sermos os filhos perfeitos. Estudar, entrar na faculdade, estudar mais um pouco, namorar, arranjar um emprego, ser independente, casar, ter filhos e morrer com uma família enorme. E cheio de dívidas.
Mas e quando uma dessas coisas sai "errado"?
Nós crescemos acreditando que teremos resposta para tudo e que nosso futuro será certeiro. Ledo engano.
A gente cresce, namora, leva um pé na bunda e todo aquele medo que você aprendeu a ter quando criança virou uma bola de neve e você está preso nessa bola de neve. Sufocado. Irritado. COM MAIS MEDO. E todas aquelas oportunidades escorregam pelos seus dedos. Porque você teve medo.
Medo de amar de novo e levar outro pé na bunda.
Medo de ser feliz e a felicidade acabar.
Medo de ter sucesso e ao errar seu mundo desabar.
Medo de jamais ter o que chamar de teu, seja uma casa, um carro, uma bike, um computador ou um cachorro.
Medo de ter responsabilidade e decepcionar.
Medo de fazer o outro sofrer com seus defeitos.
Medo de não ser capaz de fazer o que mais quis fazer na vida, porque não consegue se concentrar e ter disciplina.
E no meio de tanto medo... quem vive?