eu sou o silêncio que me escuta
a lua que minguou

eu sou o pó levado pelo vento
as cinzas que já passou

eu sou a tarde que morre
o juízo que sumiu

eu sou o espaço vazio do mundo
a palavra que calou

eu não sou eu
eu sou o vazio
eu sou o desamor
eu sou a rouquidão

eu sou tudo
e sou o nada
estou aqui
e em lugar algum.

surpreendida por um momento de alegria, me desconheci. me vi saindo de meu corpo, me transformando em quem eu não queria. repetidas vezes, me sonhei nesse corpo. me sonhei nessa ilusão de que tudo, um dia, vai ficar bem. mas não vai. esses momentos alegres chegam e do mesmo jeito que chegam, vão embora. estou surpresa que a alegria ainda não foi embora. estou surpresa que estou aguentando minuto por minuto esse estado lastimável de ficar sorrindo pras paredes. não pode ser eu. não pode. e tudo por que eu vi uma joaninha pousar em minha mão. não sou eu de jeito nenhum.

sarah b.

uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. apesar de, se deve comer. apesar de, se deve amar. apesar de, se deve morrer. inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida.

uma aprendizagem ou o livro dos prazeres
clarice lispector

Eu caminho de sonhos em sonhos
de pesadelos em pesadelos,
escutando meu corpo,
escutando meu coração.

Eu me perco em vozes,
me reprovo em orações,
me julgo em palavras,
me iludo em silêncios.

As vozes me acordam,
as vozes me desnorteiam,
me sugam para o deserto da solidão,
mas continuo aqui.

quem sou eu?
quem é ela,
lua brilhante?
como me sobro na vida?

quero desmontar o quebra cabeça
deixar uma peça em todo caminho
para mais tarde me procurar
por entre as frestas de sua luz.

me sobra espaço nessa madrugada solitária
me resta a realidade do vazio
a voz que não me deixa dormir
o toque que não recebo.

estranha, perdida em minha solidão
rasgo palavras
e construo meu único e complexo
quebra cabeças...