Nadar no mar em noite azul, é vivenciar a poesia das aves.

Luiz França

poetizar
é não falar
é sentir através das palavras
os sentidos mais intensos

poetizar
é estabelecer uma conexão
com o coração
é fazer valer tudo de bom

poetizar
verbo ou palavra?
no singular ou no plural
é a palavra mais linda do meu vocabulário.

Piaf - Um hino ao amor

Sinopse do filme:
A vida de Edith Piaf (Marion Cottilard) foi sempre uma batalha. Abandonada pela mãe, foi criada pela avó, dona de um bordel na Normandia. Dos 3 aos 7 anos de idade fica cega, recuperando-se milagrosamente. Mais tarde vive com o pai alcoólatra, a quem abandona aos 15 anos para cantar nas ruas de Paris. Em 1935 é descoberta por um dono de boate e neste mesmo ano grava seu primeiro disco. A vida sofrida é coroada com o sucesso internacional. Fama, dinheiro, amizades, mas também a constante vigilância da opinião pública.

Desde a premiação do Oscar, estava com vontade de assistir ao filme biográfico de Edith Piaf. Nesta visita a casa de meus pais, minha mãe comentou que queria assistir ao filme também. Fui a locadora e qual não é minha surpresa: aqui tinha chegado o filme. Aluguei. À noite, esperei minha mãe terminar seu trabalho e começãmos a assisti-lo. Que filme! Que direção sensível! Que interpretação formidável! Marion Cotillard incorporou Edith Piaf. O andar curvo, a boca meio deformada. Ao ver um vídeo de Edith Piaf no Youtube.com, pensei ser uma cena do filme, mas não era.
Entre os filmes biográficos que já assisti, Ray Charles ainda é o primeiro da minha lista. Não só pela surpreendente interpretação de Jammie Foxx, mas pela história desse cantor. A dor, o vício, a desintoxicação, o perdão. Em segundo, está esse filme de Edith Piaf. E, em terceiro, a biografia de Cazuza, onde Daniel de Oliveira também personificou o cantor. Há outros filmes, também, mas esses três me marcaram até a alma.

Minotauro

Busto de Minotauro

Monstro de corpo de homem e cabeça de touro, nascido dos amores proibidos da rainha de Creta, Parsífae, com um magnífico touro branco que o rei Minos recusara-se a sacrificar a Poseidon. Para afastá-lo dos olhares de seus súditos, o rei encerrou-se no labirinto (havia, de fato, em Cnosso um labirinto em mosaico, indicando o local dos dançarinos que ali executavam uma dança ritual chamada de dança do labirinto). A cada nove anos, os atenienses deviam enviar um grupo de sete rapazes e sete moças (final do Grande Ano), que serviam de pasto a Astério ou Astérion, o Minotauro. Este foi morto por Teseu, ao qual Ariadne dera um novelo de fio de linho que, desenrolando-se, o levou até o monstro adormecido, que ele matou com um golpe de maça (ou com uma espada dada por Ariadne), e, voltando a enrolar-se, permitiu-lhe encontrar a saída do labirinto.

** O Minotauro foi originariamente o aspecto noturno, sombrio e terrível de uma antiga representação egito-cretense do deus-sol encarnado e rei divino. Encarnação da dualidade da natureza humana (corpo-matéria e espírito-alma), é também a imagem do monstro-tirano ávido das prerrogativas insaciáveis do "meu" e do "eu", o símbolo do desenvolvimento abusivo do ego, que é "uma maldição para ele próprio e para a sociedade em que ele vive...". Atitude que pode provocar desastres na esfera pessoal do indivíduo e no "escalão do mundo". O combate de Teseu e do Minotauro representa, como todos os combates míticos, a luta entre o bem e o mal, a vitória sobre o aspecto negativo da personalidade.

Luta entre Minotauro e Teseu

A carta - pt. 2

“Não quero que você fique triste. Eu estou bem. Não estou enlouquecendo, talvez um pouquinho. Muitas coisas aconteceram durante meus anos, gostaria de compartilhá-las com você, mas não teria coragem de dizer, então escrevo essas linhas tortas e trêmulas. Por muitos anos eu sofri por ter deixado de amar sua mãe, mas nunca quis abandoná-la. Eu gostava dela, era uma ótima companheira. E também tinha você, minha queridinha! Quando você nasceu eu chorei tanto que os médicos acharam que eu fosse passar mal. Como era pequenina! Tinha medo de pegá-la no colo!”
Sua mão tremia tanto que não conseguia segurar a carta. Seu pai nunca tinha segredos com ela. Quando criança adorava ouvir seu pai contando sobre seu nascimento. “Mas eu também tive outro filho. Com outra mulher, por quem me apaixonei perdidamente! Ela já desencarnou, assim como o menino. Eles morreram num acidente de carro quando viajavam para o Rio de Janeiro, há seis anos atrás. Lembra-se como fiquei deprimido naquele mês de fevereiro? Você ficou preocupada e tentava me animar, achando que eu estava deprimido porque tinha me aposentado e não tinha mais o que fazer.” Essa revelação foi terrível, mas sempre desconfiou da depressão do pai, depois de ter visto aquela matéria no jornal. Ficou por muito tempo triste e ela ficou desesperada querendo ajudá-lo e não conseguido.
“Se você achar que deve, fale sobre isso com sua mãe. Ela sempre desconfiou que eu a traía, mas eu sempre neguei, claro. Não queria magoá-la! Nem a você, minha queridinha. O fato é que eu comecei a ter estranhos esquecimentos e fui ver o que era. Fiz vários exames e o resultado foi o que mais temia: o mal de Alzheimer começou a me atacar. Meu avô teve essa doença e foi terrível vê-lo num asilo, entretido em seu próprio mundo, esquecendo-se de tudo e de todos. Não queria ter o mesmo destino. Quero sempre lembrar de sua mãe, a quem eu amei muito no começo, mas que depois me deu a maior alegria de minha vida: você! Também amei meu outro filho, mas ele era homem, mais independente. Você sempre foi minha princesinha! Quero que vocês se lembrem de mim como aquele homem risonho e feliz que sempre fui ao lado de quem amei! Não estou sendo covarde, estou sendo burro, eu sei. Acho errado o que farei, mas não quero deixá-las tristes porque não consigo me lembrar de nossas maiores felicidades em vida.”
Ela já não sabia mais o que pensar, nem o que fazer. Ligar pra sua mãe? Dizer que o pai mandou uma última carta se despedindo, dizendo que a traiu e teve outro filho, que estão mortos? Dizer que aquele homem a quem tanto amou se matou por medo de uma doença?
Ele finalizava a carta dizendo que as amava, que sentiria saudade e que um dia as reencontraria, talvez em outra vida. Mandava beijos e abraços e muito sucesso. Sempre terminava as cartas friamente, mandando saudações e felicitações, como se fossem distantes, mas o conteúdo sempre era emocionante e cheio de carinho e amor. Não entendia a atitude de seu pai. Ele sempre contava com elas para tudo e também sempre esteve por perto.
Saiu da absorção com a música na vitrola. Levantou-se e a desligou. Voltou a sentar no sofá, pensando, cansada. Deitou, abraçou a almofada e chorou. Chorou até dormir.

A carta

O quarto estava limpo como sempre. A cama arrumada, livro na mesinha de canto, ao lado da poltrona com a luminária, para ler ao escurecer. Na sala, o sofá com um protetor costurado por sua avó, na mesinha de centro estão os controles e as revistas ainda não lidas. As cartas espalhadas no chão demonstravam que ela não estava em casa há alguns dias.
Há duas semanas havia recebido uma ligação dizendo que o corpo de seu pai, até então desaparecido quando seu carro caiu de uma ponte, havia sido encontrado. Ela viajou até a cidade de seu pai para reconhecer o corpo e por lá ficou até a missa de sétimo dia. Sua mãe queria que voltasse, ou que a levasse consigo, mas no momento em que estava sua vida, com a correria de seu trabalho, não teria tempo de cuidar direito de sua mãe, mas assim que as acalmassem, as duas morariam juntas.
As circunstâncias sobre a morte do pai não havia sido resolvida. Alguns diziam que ele estava bêbado, outros diziam que ele encontrou um carro na contramão e tentou desviar, colocando assim sua vida em risco. Poucos alegavam suicídio, mas como era um homem muito respeitável e sempre muito sorridente, a última hipótese foi descartada.
Quando chegou em sua casa e viu aquele monte de correspondência, sentiu-se deprimida. Voltaria a sua vida de casa para o emprego, do emprego para casa e saídas nos finais de semana. Lembrou de seu pai e chorou. Colocou as cartas na mesa, desarrumou a mala e guardou suas roupas, colocou outras para lavar e tomou um banho quente. Ao sair, colocou o disco Meus caros amigos de Chico Buarque na vitrola que seu havia dado há dois anos. Adorava esse álbum, principalmente a música Olhos nos olhos, que dizia muito de uma relação que ela teve.
Com o som baixinho, começou a ler suas correspondências. Contas, cartas de amigas, postais de um amigo que estava fora do país e uma carta sem remetente. Adorava escrever e receber cartas, achava essa coisa de e-mail um pouco impessoal, apesar de ser mais eficiente que os correios. O disco acabou e ela foi trocar. Colocou o LP ao vivo que Chico Buarque gravou junto com Maria Bethânia. Ela tinha uma coleção de LP’s, muitos dados por seu pai. Tinha quase todos do Chico, um de seus cantores e compositores favoritos.
Abriu a carta sem remetente. Ao começar a ler, gelou. Seu coração acelerou. Era uma carta de seu pai. “Minha queridinha”, assim começava. Ele sempre a chamava de queridinha e ela o chamava de queridão. “Ao ler esta carta, talvez eu já não esteja mais entre vocês”. As lágrimas escorriam sem que ela percebesse, aquelas palavras a atacaram como uma faca assassina. Muitas coisas passaram por sua cabeça: será que ele realmente se matou?

continua...