17 de março de 2014

"Alta noite já se ia
ninguém na estrada andava
No caminho que ninguém caminha,
alta noite já se ia
Ninguém com os pés na água..."


Ninguém caminha comigo. Sou só. Sou solidão. Sou muralha indecifrável, impenetrável. No meu caminho apenas sombra. Apenas sobras de falhas. Na manhã ensolarada, pedras e espinhos. Sou rosa. Sou passos marcando a estrada lamacenta. Sou tentáculos. Sou verde e amarelo. Oito ou oitenta. Sou só. Sou furacão devastando cidades, corações, canções. Sou brisa. Sou frio. Vento puxando água dos sonhos na tarde cinza. Sou o olhar daquela menina feliz. Sou a lágrima do bebê chorão. Sou a esperança do jovem e a lembrança do velho. Gotas e gatas. Sou catarse. Sou ópera. Na carta, sou "eu te amo" sincero e "eu te odeio" envergonhado. Não sou nada além disso. Sou tudo, sou nada. Palavras vomitadas na sopa de letrinhas. Sou a noite de inverno. A fumaça do cigarro. Sou ele. Sou você. Sou só. Solidão.

14 de fevereiro de 2014

A linha do pensamento sai em desordem
cria paisagem e desdém
canta o sonho perdido
e deixa o desejo iludido.
O corpo que já não é mais corpo
A mão que desliza a esmo
O olhar que já não está mais lá
A boca que não quer mais beijar.
Enquanto o coração de pedra amolece
As lágrimas molham o travesseiro
Eu não sou mais eu
E você me diz que quem perdeu fui eu.

12 de outubro de 2013

Era um dia cinzento, chuvoso, os carros faziam filas nos faróis, buzinando. Um dia horrível. Ele escutava a chuva pingar em minha janela. Dentro do quarto, ao contraria da movimentação da rua, o silêncio era infinito. Os olhos ardiam, o corpo doía, e a mão escrevia sem intervalo, estava até dura.

Na estante uma fotografia amassada, livros e decorações que trazia de suas viagens. A máquina de escrever estava num canto, com uma folha inacabada e letras desordenadas. Não fazia idéia de quanto tempo já estava ali escrevendo. O cigarro no cinzeiro ainda soltava fumaça, o copo de uísque apenas com pedras de gelo derretendo. Levantou-se de sopetão e revirou o quarto procurando por algo e logo reverberou pela casa um barulho e quando ela entrou, viu o corpo dele embaixo de muitas roupas, o soluço baixinho e ele dizia repetidamente: “eu não consigo, eu não consigo, eu não consigo”.

Tirou a arma de sua mão e viu que estava sem balas, ela havia retirado as balas há muito tempo atrás, quando ele começou com a paranóia. Deitou-se ao lado dele, chorando e repetindo: “eu não agüento mais, eu não agüento mais, eu não agüento mais”.

6 de setembro de 2013

As palavras que vem e vão
tem sabor de morango mordido ou de amora fresca, roubada da árvore, e o sorriso da menina que passa do seu lado e chama sua atenção, te faz lembrar dos versos descobertos na cama, quando você apalpa o caminho do pecado e aquele sorriso chega para te presentear mais uma vez.
“Estou pronta!” – penso. Mas pronta para o quê, exatamente? E a vontade de sair pelas ruas a sua procura é tão intensa que esquece o caminho percorrido e perde-se mais uma vez nas lembranças.


Sentada no banco da praça,

ela diz, à sua frente:
"Cheguei!"
Mas ao olhar só enxerga o sol te cegando
e o calor que se manifesta ardentemente.
As palavras que vem e vão,
os amores que vem e vão.

E é de se estranhar que o coração

sempre chama pelas mesmas vozes,
e é de estranhar que o rádio
toca as mesmas canções,
e você sempre a mesma a procurar.

3 de setembro de 2013

Aqui chove dor
doença que maltrata o coração
que maltrata a alma

Aqui pinga solidão
sensação de tristeza
tempestade de paralisia

Aqui evapora sonhos
sorrisos que fogem dos lábios
tentação do caminho sem rota

Aqui mora a infelicidade
protetor das causas perdidas
e dos poetas sem sonhos.

17 de agosto de 2013

Observando a noite iluminada pelas luzes da cidade
Minha mente foge para onde te perdi
Um caminho sem volta, sem sonhos
Apenas com a solidão como companheira.
O cigarro, o copo de vinho,
Um disco da Joni Mitchell e minhas lembranças.
Como testemunha do silêncio,
o vaso na sala.