A carta - pt. 2

09:00

“Não quero que você fique triste. Eu estou bem. Não estou enlouquecendo, talvez um pouquinho. Muitas coisas aconteceram durante meus anos, gostaria de compartilhá-las com você, mas não teria coragem de dizer, então escrevo essas linhas tortas e trêmulas. Por muitos anos eu sofri por ter deixado de amar sua mãe, mas nunca quis abandoná-la. Eu gostava dela, era uma ótima companheira. E também tinha você, minha queridinha! Quando você nasceu eu chorei tanto que os médicos acharam que eu fosse passar mal. Como era pequenina! Tinha medo de pegá-la no colo!”
Sua mão tremia tanto que não conseguia segurar a carta. Seu pai nunca tinha segredos com ela. Quando criança adorava ouvir seu pai contando sobre seu nascimento. “Mas eu também tive outro filho. Com outra mulher, por quem me apaixonei perdidamente! Ela já desencarnou, assim como o menino. Eles morreram num acidente de carro quando viajavam para o Rio de Janeiro, há seis anos atrás. Lembra-se como fiquei deprimido naquele mês de fevereiro? Você ficou preocupada e tentava me animar, achando que eu estava deprimido porque tinha me aposentado e não tinha mais o que fazer.” Essa revelação foi terrível, mas sempre desconfiou da depressão do pai, depois de ter visto aquela matéria no jornal. Ficou por muito tempo triste e ela ficou desesperada querendo ajudá-lo e não conseguido.
“Se você achar que deve, fale sobre isso com sua mãe. Ela sempre desconfiou que eu a traía, mas eu sempre neguei, claro. Não queria magoá-la! Nem a você, minha queridinha. O fato é que eu comecei a ter estranhos esquecimentos e fui ver o que era. Fiz vários exames e o resultado foi o que mais temia: o mal de Alzheimer começou a me atacar. Meu avô teve essa doença e foi terrível vê-lo num asilo, entretido em seu próprio mundo, esquecendo-se de tudo e de todos. Não queria ter o mesmo destino. Quero sempre lembrar de sua mãe, a quem eu amei muito no começo, mas que depois me deu a maior alegria de minha vida: você! Também amei meu outro filho, mas ele era homem, mais independente. Você sempre foi minha princesinha! Quero que vocês se lembrem de mim como aquele homem risonho e feliz que sempre fui ao lado de quem amei! Não estou sendo covarde, estou sendo burro, eu sei. Acho errado o que farei, mas não quero deixá-las tristes porque não consigo me lembrar de nossas maiores felicidades em vida.”
Ela já não sabia mais o que pensar, nem o que fazer. Ligar pra sua mãe? Dizer que o pai mandou uma última carta se despedindo, dizendo que a traiu e teve outro filho, que estão mortos? Dizer que aquele homem a quem tanto amou se matou por medo de uma doença?
Ele finalizava a carta dizendo que as amava, que sentiria saudade e que um dia as reencontraria, talvez em outra vida. Mandava beijos e abraços e muito sucesso. Sempre terminava as cartas friamente, mandando saudações e felicitações, como se fossem distantes, mas o conteúdo sempre era emocionante e cheio de carinho e amor. Não entendia a atitude de seu pai. Ele sempre contava com elas para tudo e também sempre esteve por perto.
Saiu da absorção com a música na vitrola. Levantou-se e a desligou. Voltou a sentar no sofá, pensando, cansada. Deitou, abraçou a almofada e chorou. Chorou até dormir.

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