A carta

10:30

O quarto estava limpo como sempre. A cama arrumada, livro na mesinha de canto, ao lado da poltrona com a luminária, para ler ao escurecer. Na sala, o sofá com um protetor costurado por sua avó, na mesinha de centro estão os controles e as revistas ainda não lidas. As cartas espalhadas no chão demonstravam que ela não estava em casa há alguns dias.
Há duas semanas havia recebido uma ligação dizendo que o corpo de seu pai, até então desaparecido quando seu carro caiu de uma ponte, havia sido encontrado. Ela viajou até a cidade de seu pai para reconhecer o corpo e por lá ficou até a missa de sétimo dia. Sua mãe queria que voltasse, ou que a levasse consigo, mas no momento em que estava sua vida, com a correria de seu trabalho, não teria tempo de cuidar direito de sua mãe, mas assim que as acalmassem, as duas morariam juntas.
As circunstâncias sobre a morte do pai não havia sido resolvida. Alguns diziam que ele estava bêbado, outros diziam que ele encontrou um carro na contramão e tentou desviar, colocando assim sua vida em risco. Poucos alegavam suicídio, mas como era um homem muito respeitável e sempre muito sorridente, a última hipótese foi descartada.
Quando chegou em sua casa e viu aquele monte de correspondência, sentiu-se deprimida. Voltaria a sua vida de casa para o emprego, do emprego para casa e saídas nos finais de semana. Lembrou de seu pai e chorou. Colocou as cartas na mesa, desarrumou a mala e guardou suas roupas, colocou outras para lavar e tomou um banho quente. Ao sair, colocou o disco Meus caros amigos de Chico Buarque na vitrola que seu havia dado há dois anos. Adorava esse álbum, principalmente a música Olhos nos olhos, que dizia muito de uma relação que ela teve.
Com o som baixinho, começou a ler suas correspondências. Contas, cartas de amigas, postais de um amigo que estava fora do país e uma carta sem remetente. Adorava escrever e receber cartas, achava essa coisa de e-mail um pouco impessoal, apesar de ser mais eficiente que os correios. O disco acabou e ela foi trocar. Colocou o LP ao vivo que Chico Buarque gravou junto com Maria Bethânia. Ela tinha uma coleção de LP’s, muitos dados por seu pai. Tinha quase todos do Chico, um de seus cantores e compositores favoritos.
Abriu a carta sem remetente. Ao começar a ler, gelou. Seu coração acelerou. Era uma carta de seu pai. “Minha queridinha”, assim começava. Ele sempre a chamava de queridinha e ela o chamava de queridão. “Ao ler esta carta, talvez eu já não esteja mais entre vocês”. As lágrimas escorriam sem que ela percebesse, aquelas palavras a atacaram como uma faca assassina. Muitas coisas passaram por sua cabeça: será que ele realmente se matou?

continua...

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