Violão

16:37

O violão estava encostado há alguns meses. E, por meses, ele o encarava. Sentia o peito doer, a garganta secar, seus olhos marejavam. Sentia que não conseguiria mais tocar. Caminhava por horas e horas e só pensava em uma coisa: queria tocar de novo para ela. Ela que o tocara de uma maneira que nenhuma outra o havia tocado antes, que olhava para ele com aqueles grandes olhos azuis querendo o devorar. Caminhava, caminhava e não conseguia deixar de pensar nela, em seu toque sempre suave, seu beijo cheio de desejo, sua voz que enchia o coração de felicidade. Pensou até em vender o violão. Mas não, era presente dela. Relíquia. Chegava em casa, sentava no sofá e o encarava por horas. Sentia medo, vertigem. Não queria chorar ao tocar, mas já chorava só de lembrar. O coração arrependido gritava seu nome, sua vida, seu desejo. Pegou o violão em suas mãos. Colocou no colo devagar. Fechou os olhos e começou a dedilhar. Ao abrir os olhos, atônito, pensou “porque não?”. Saiu correndo com o violão nas mãos. Era longe, mas chegaria. Chegaria cansado e com a voz embargada. Estava frio aquela noite. Saiu sem casaco, apenas um cachecol no pescoço. Corria o mais depressa que conseguia. Chegou à praça onde a conheceu. Sentou num banco, suado, cansado e começou a dedilhar devagar, baixinho. Gritou uma, duas, três vezes. Chorava demais. As putas que faziam ponto ali, ficaram assustadas no começo, mas quando perceberam a dor daquele homem, daquelas músicas dedilhadas com o coração, sentiram vontade de chorar. Ele cantou e a lua apareceu enorme, cheia, iluminando sua serenata. Serenata que seria escutada pelo bairro todo, por corações apaixonados, por corações despedaçados. E, assim, ele fez todos os dias até conseguir chegar no coração daquela mulher que ele amava e que sempre amaria.

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